Apelo aos "designers"

[28/10/2009] Folha de São Paulo 21/08/2007 – Caderno Ribeirão
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NO LIVRO "O MITO DE SÍSIFO" Albert Camus afirmou que os suicidas preparam a sua morte como uma obra de arte. Eles desejam que o seu último gesto seja contemplado pelos que vivem como algo belo, ainda que trágico. Acho que o mesmo deveria ser verdadeiro daqueles que morrem sem se suicidar. Um velório deveria ter a simplicidade e a beleza de um hai-kai. Um conhecido meu, nos Estados Unidos, morreu bem jovem ainda. Sua mulher, que conhecia o seu coração, preparou o seu sepultamento com a alma de uma artista. Era outono. No outono a natureza está morrendo. Em breve chegará o inverno. As árvores, então, explodem num incêndio de cores vermelhas como o sangue e amarelas como a gema. É insuportavelmente belo e dilacerantemente triste. A mulher fez com que o ataúde do seu marido fosse simples e rústico, puro pinho sem verniz. Convidou então os amigos para um serviço de amor: costurar centenas ou milhares de folhas coloridas de outono num lençol com que cobririam o ataúde. E assim foi ele devolvido ao seio da Mãe Terra. Um outro cuidou para que não houvesse velório: sabendo que ia morrer doou seu corpo para o departamento de anatomia da Faculdade de Medicina. Mas, ao mesmo tempo, deixou como herança para os seus amigos, apenas para os seus amigos, um banquete. O morto convidava os amigos a se reunir, comer, beber, conversar, rir e chorar. Eu escrevo isso porque tenho medo dos velórios. Eu os acho de uma feiúra horrenda. Neles o horror estético é uma ofensa à tristeza. Ninguém, olhando para aquela parafernália mortuária grotesca, a urna funerária de um mau gosto atroz, aquelas peças de metal onde se apóia o esquife, os castiçais e tudo o mais, se comoveria com a sua beleza. Chego a pensar que isso se fez de propósito, com fins terapêuticos: o horror estético diminui a tristeza da alma. Esse artigo, eu o dirijo aos designers. "Designers" são artistas. Eles tomam os objetos do cotidiano, desgastados pelo tempo e pelo costume, e os ressuscitam sob novas formas. Mas, infelizmente, nenhum deles até hoje empregou a sua arte para fazer valer a afirmação de Camus. Até hoje ainda não vi em revistas de arte nenhum exemplo de transfiguração de objetos do velório pela arte dos designers. Apreciadores da beleza, será que eles ainda não pensaram no seu próprio velório? Estive decidido a ser cremado, pensando que a cerimônia poderia ser bela: enquanto as chamas fazem o seu serviço, ouve-se música de Bach: o coral "Todos os Homens Devem Morrer" ou o delicadíssimo"Vem Doce Morte". Mas aí me disseram que não é assim. O defunto é deixado lá no crematório, ao lado de outros defuntos, até o dia em que todos são cremados por atacado, solitariamente. Isso não é bonito. Mas em sendo enterrado, não quereria ser enterrado numa dessas urnas funerárias que se compram em empresas que vivem da morte. Não combinam com meu gosto estético. Gostaria de uma urna de madeira bruta, sem vernizes, lisa, e sem metais dourados. Nela, quem sabe, uma mensagem leve, como o epitáfio que Mário Quintana escolheu para si mesmo: "Eu não estou aqui"... Fica aqui o meu pedido aos "designers" para garantir que meu velório (e o deles) seja uma obra de arte...